“Wolf Hall” 2ª temporada, 2024.

10 anos depois temos direito ao regresso desta maravilha... continuo exactamente onde me deixei há 10 anos atrás: a Hilary Mantel é um génio literário e da análise política, com este retrato do cortesão perfeito e estadista fora de série podia dar lições ao Maquiavel... por uma vez (a primeira temporada) é tão boa a série como o livro, e não só pela inenarrável obsessão com o pormenor, eles serem parecidos ajuda, vestirem-se e AGIREM como na época é um doce (eu vejo um guardanapo atirado ao ombro e até se me veem as lágrimas aos olhos)... o elenco a maravilha que se sabe: do Rylance e do Damian Lewis nem piu, só beijos e rosas. Outras maravilhas que continuam é o Brodie-Sangster como Rafe Sadler, a Foy como Bolena, o Pryce como Wolsey, o Will Keen como Cranmer (melhor latim que já ouvi a um bife.. fui ver: neto de conde, educadinho em Eton e Oxford)... as substituições não deram desgraça nenhuma: o Gardiner do Alex Jennings é repelente que chegue, mesmo que não se compare com o asco que o Mark Gatiss conjura; o Norfolk do Spall parece um destroço face ao do Bernard Hill (mas a verdade é que este morreu entretanto e de toda a maneira o Norfolk do Spall é suposto ser anos mais velho e, sem ter lido os outros dois calhamaços não sei se não já decadente), o Call-me do Melling (ainda e sempre o primo gordo do Potter) é clara promoção. Toda a magnificência do guião, do elenco, figurinos e cenários é complementada por uma maneira de filmar quase.. quase jornalística, muito câmara ao ombro a seguir personagens enquanto elas vão duma sala para outra, o que permanentemente as aproxima da realidade que foi e afasta dos "deuses que cagam mármore" da História com H grande. Uma maravilha completa. Tudo perfeito para o retrato carinhoso que a Mantel cria para o mais encantador e bem-intencionado e auto-reflexivo dos psicopatas obcecado com o poder... a penúltima cena do penúltimo episódio é uma obra-prima que se aguenta sozinha.

E depois temos o ataque de colour blindness que lhes deu na segunda temporada. Isto tem sido maleita a que os bifes têm sido muito atreitos (muito mais que a gringa) mas ainda não se me tinha atacado em sítio sério. Que me elenquem afro-descendentes para alto-aristocratas ingleses oitocentistas em séries-merda tipo Bridgerton ou todo o slop sexy-Tudor a mim não me toca, se não é assumidamente sério à entrada, porque é que o há de ser no durante, e ainda bem que se abrem vagas de emprego para alguém que não brancos louros de olhos azúis. Mas aqui a conversa é outra e a colour blindness é insulto aos olhos e aos sentidos. O Christophe ser um francês mulato sim, a Bess Seymour nem pensar... se queremos contar a história de um negro na Inglaterra dos séc. XVI (que os havia!!) contem-na. Agora, dar corpos negros a histórias de brancos na expectativa de nos obrigar a fingir que não há nada de absurdo no Privy Council do Henrique VIII estar cheio de negros e indianos ou a Elizabeth Seymour, condessa de Wiltshire, baronesa Crowmwell e St. John, filha do sir John of Wulfhall e da lady Margery Wentworth; irmã de rainha e tia de rei não ser a branca pastosa do Holbein mas sim alguém como a Maisie Richardson-Sellers, é fingir que o facto da lady Cromwell ter aquela cara não seria uma questão na altura (o que é mentira), para além de me parecer mais uma maneira, especialmente criativa, de continuar a não contar as histórias dos negros da Inglaterra do séc. XVI (que os havia!!).

E depois há o Gregory, e isto tem de ser complexidade da mente brilhante da Mantel (aliás, eu vou levantar-me daqui e reler o primeiro monstro e a seguir ler os outros dois), mas nada me tira da ideia que toda a relação desnecessariamente envenenada com o pai se me vem da miniatura de Haia, duma psicologia de tristeza esmagadora que o Holbein, como sempre, apanha completamente.

https://www.youtube.com/watch?v=_JMPXb9X630


 

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