Bandidos sim, do Cante menos.
É um tipo a tratar uma rapariga duma maneira absolutamente decente e ela vira-se e manda-me ouvir os Bandidos do Cante, muito obrigado Rafaela!
O cante é das cenas mais punk rock da música tradicional portuguesa, mas é uma namorada muito high maintenance como diriam os misóginozinhos de agora, porque depende muito de condições de produção: primeiro não grava, não funciona em gravações, vídeo ou áudio, não funciona; música coral perde sempre que não é ao vivo, mas no cante especificamente, porque é totalmente despido de todo e qualquer truque acessório, a décalage é total; a coisa nem funciona amplificada para grandes públicos, a olho eu diria um máximo de 5 6 metros de distância máxima e uma proporção de 4x de público para o número de cantadores. Idealmente um tasco alentejano forrado a grandes talhas de barro ou, melhor ainda, uma estreita rua alentejana por onde eles possam descer a passo... o mesmo passo.
O cante é uma cena brutal. Funciona em cima duma coisa que não é um truque, é só força do colectivo, 20 ou 30 não cantores que simplesmente cantam a mesma nota e esmagam o público com a força do som, pausam, o alto dá uma voz solitária, e os cabrões voltam a esmagar-nos com a potência do som colectivo... isto tecnicamente é óbvio, mas não é simples de conseguir e não dá para verter em gravações, mas tem toda a pinta de ser muito muito antigo enquanto expressão artística. Aqui estes 5 a cantar à vez um xarope com musiquinha merda por trás e eventualmente sai uma Cristina Ferreira da esquerda baixa a fingir que toca violino está para o cante como eu dizer “ai mãezinha” no banho está para o fado. Desconsegui ficar admirado quando a levantar-lhes a ficha descubro que são grandes amigos dos DAMA e do Zambujo...
Portanto, muito obrigado Rafaela.
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