“Les Vampires” Louis Feuillade, 1915 – 1916.
Isto é uma coisa maravilhosa e uma pérola esquecida (não em França, em França ainda se vendem posters disto), na realidade são 10 filmes sequenciais que foram saindo ao longo de mais ou menos 1 ano e têm ao todo umas 7 horas. Os filmes são:
“La Tête Coupée”, “La Bague qui Tue”, “Le Cryptogramme Rouge”, “Le Spectre”, “L’Évasion du Mort”, “Les Yeux qui Fascinent”, “Satanas”, “Le Maître de la Foudre”, “L’Homme des Poisons” e “Les Noces Sanglantes”.
A história anda toda à volta dum jornalista burguês que tenta desmascarar um bando de criminosos especialmente organizados e implacáveis; a fotografia é muito mais nítida que a dos ianques da altura, a representação mais naturalista, mas o guião é a coisa mais folhetinesca e absurdamente pícara, passas o tempo todo a ríres-te à gargalhada mesmo que eles só queiram ser engraçados um terço do tempo, os próprios nomes das personagens são logo meia indicação da geral falta de seriedade: Mortesaigues (mortes sofridas), Kerlor (que ouro), Mazamette (trocadilho c/ mazette inútil)...
Estes são os filmes que fazem da Musidora (como Irma Vep, no seu maillot muito colante e meio transparente às vezes) uma estrela internacional que ainda hoje vende posters e postais, e donde vem o uso do adjectivo “vamp” para falar duma mulher perigosamente atraente; a actuação dela é sempre duma intensidade quase desconfortável. Mas comigo it’s no contest a estrela da companhia é o Mazamette do Marcel Lévesque, sempre a agir da maneira absurda possível e continuamente a quebrar a 4ª parede, que começa como contínuo no jornal do herói, personagem terciária que serve basicamente para ser informador dos bandidos e ser apanhado, rouba o palco de tal maneira que no segundo já é assistente do herói, até ao fim basicamente substitui funcionalmente o jornalista, quando nos últimos trazem o Bout de Zan para fazer o filho do Mazamette está o circo montado e os filmes mudam de sinistros a completas comédias de circo.
Também adoro como todos os momentos são intercortados com um “na manhã seguinte” muito França: não há nada que exija a urgência de não se jantar sossegado e dormir na própria cama. O Resnais dizia que o cinema tinha duas paternidades: o documentarismo seco dos manos Lumière e a completa loucura do Méliès e que o Feuillade conseguia sintetizar, o meu amigo Bartlett apontou muito bem a suavidade em curtos degraus com que ele nos leva duma situação absolutamente normal até outra que parece saída dum sonho ou dum pesadelo (não admira que os surrealistas adorassem este baixo cinema de povão). A cena do canhão atrás da secretária é das coisas mais gloriosas da história do cinema e a da corda desenrolada no último filme provavelmente a razão pela qual a forma de arte foi inventada:
https://www.youtube.com/watch?v=W7s0iHtc3UA
todos aqui.

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