Notas feitas.

“Razões da Presença de Portugal no Ultramar” “Depoimento” Marcello Caetano, 1973 / 1974

isto é o drama de termos intelectuais como ditadores (essa, ao menos, passou-nos!): antes escrevem tratados cheios de razões como sem nós os pretinhos se comem uns aos outros, depos, ainda a revolução não começou e já a múmia tinha um livro no prelo a falar do fiel e sereno povo, do nosso multirracial ultramar, nas mentiras comunistas sobre a PIDE, só visto...

 

“8º vol História de Portugal dir. José Mattoso – Portugal em Transe 1974-1985” José Medeiros Ferreira, 1994

o tio Medeiros Ferreira a pisar ovos, muito agarrado aos factos, a tentar pairar e não perder amigos porque toda a gente ainda está viva e a olhar atenta, uma porra, um trabalho que é uma merda para se fazer. Isentão? Sim. Podia-se não fazer já? Não. Dava para fazer doutra maneira? Pois...

 

“Destinos do Ultramar” Orlando Ribeiro, 1975

grande Orlando, inevitavelmente assustado com o Portugal pequeno, mas sem ilusões nenhumas sobre o multirracialismo das “províncias ultramarinas”.

 

“Dossier PIDE – os horrores e crimes de uma polícia” 1974

recolha de descrições das acções dos “gorilas” nas universidades, cartas de professores e exemplos de bufaria. Basicamente restrito à acção urbana e de opressão estudantil.

 

“De Salazar a Costa Gomes” Manuel Maria Múrias, 1998

o tio Manuel Maria era um facho, mesmo mesmo facho (não como o Botas, que ainda há para meter pruridos de seria ou não seria, com o Múrias não dá porque esteve sempre à direita do Átila) e um que andou para aqui a atacar até eu ter barba. Nesta fase já tinha saudades do Botas (quando nos maus velhos tempos só faltou chamar-lhe comunista) e farta-se de dizer larachas sobre a resistência ao comunismo e a matança da Páscoa e coisas assim. Só para não acharem que as fake news foram inventadas pelo Bannon.

 

“A Invasão Spinolista” Eduardo Dâmaso, 1997

antes do Miguel Carvalho foi o Dâmaso que me explicou a dimensão do que foi o terror branco do norte, o MDLP e a Maria da Fonte, os apoios internacionais e as ligações à “democracia”... e depois do cenário montado é fácil de ver o resultado da peça. Enorme trabalho.

 

“Discursos, Conferências de Imprensa, Entrevistas” Vasco Gonçalves, 1976

camarada Vasco em full swing... estás metade do tempo a concordar e a outra metade a encolher-te (como de costume com o PC). Não dá para discordar quando profetiza sobre o que o 25 de Novembro trará.

 

“Elementos para a Compreensão do 25 de Novembro” Manuel Duran Clemente, 1976

capitão Duran a tentar explicar como é que caiu na esparrela (ele chama-lhe “a banana”). Tem toda a razão do prefácio à contracapa, completo exercício de olhar para trás e dizer “olha onde o buraco em que tropecei se foi meter... bandido!”.

 

“Mulher de Abril – álbum de memórias” Virgínia Moura, 1996

camarada Virgínia a dar umas valentes sobre como é que se resiste no longo prazo, regras de segurança e disciplina. Porradinha nos rebeldinos de café como seria de esperar, mas um invulgar sentido de humor e tanta auto-consciência crítica quanta o partidão permite.

 

“A Participação Política da Juventude em Portugal – as élites políticas juvenis” Manuel Braga da Cruz, 1990

um artigozinho na Análise Social, basicamente técnico, mas donde tu sais com o retrato do “pragmatismo” dos jotinhas do centrão da altura (que são os gajos que nos estão a governar neste momento), isto vindo do Braga da Cruz, não propriamente um lírico de Abril, que fala à boca cheia do salazarismo e anti-abrilismo dos meninos. (em 1990 o chefinho da JS era o António José Seguro, o da JSD era o Pedro Passos Coelho).

 

“Conquista de Lisboa aos Mouros – Carta de um Cruzado Inglês” José da Felicidade Alves, 2004

o ex-padre Felicidade a pegar na melhor fonte que temos sobre a conquista de Lisboa pelo Afonso Henriques e a fazer uma coisa que os historiadores se pelam de fazer: uma análise funda e com ponto de vista e quase opiniões e tudo. Mas este bicho estava para ser bispo mas tinha ética e acabou excomungado, por isso obviamente não é exemplo para ninguém.

 

“The Masculinity Reader” org. p/ Rachel Adams & David Savran, 2002

enorme porta de entrada para começar a olhar para os homens como se não fossem uma ocorrência natural, porque não somos.

 

“Guerra Colonial” Aniceto Afonso & Carlos Matos Gomes, 1980

entre a meticulosidade do primeiro e a incapacidade do segundo em deixar vespeiros sossegados tens aqui o volume primeiro sobre a coisa. Podem vir e fazer e desfazer mil vezes depois, como é natural e necessário à natureza da História, mas ainda os netos dos netos hão de ter filhos que cresçam e tenham tempo para se doutorarem em História Peri-Colonial Portuguesa e que eu ouça alguém a falar sobre isto que não tenha estes dois mestres na bibliografia.

 

“Senhores de Si – uma interpretação antropológica da masculinidade” Miguel Vale de Almeida, 1995

isto até dá vergonha, porque o conheço e a tua irmã se cruza com ele 2 vezes por semana, mas isto é um trabalho monumental. O que tem mais graça é que ele próprio não o valoriza por aí além (aliás como a maioria dos colegas que se conhecem todos na habitual pequenez endogâmica académica nacional), mas isto é um discretíssimo monumento (se for para ler 3 coisas sobre masculinidade esta é uma delas).
 

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