“Os Batanetes” TVI, 2004-2005.

Tropeço neles novamente num canal qualquer e volta-me tudo e tenho de te dizer... apercebo-me que ando a dizer isto há vinte anos e ninguém quer saber por mais razão que tenha, não é grave, já aconteceu antes, la historia me absolverá!

Há muito muito tempo, ainda tu não eras nascida, a SIC acertou com muita força num programa de comédia bom e barato: a coisa hoje aparece classificada como sitcom, mas não era de todo: era mais herdeira da revista na forma e completamente dependente da recorrência das anedotas nacionais. Tinha quadros tipo: alentejanos debaixo do chaparro, paciente no consultório médico, malta na esquadra de polícia, casais ou pais e filhos em casa, o cigano em tribunal, os betos whatever, etc... havia de ser filmado in bulk, estava cheio de actores desvalorizados da revista que faziam aquilo com uma perna às costas e saíam baratíssimos, escrito a partir de anedotas mais velhas que as hemorróidas do tio Custódio por futuras lendas vivas do humor nacional, foi um inenarrável e esmagador sucesso e era a coisa mais horrenda e básica e chungosa bute tratar o público como se for débil mental e o público em resposta adorar e dar montes de razão ao Hobbes; resulta aquilo tudo numa pepineira do pior, um retrato da chafarica, uma depressão, pareceu o recuar de 10 anos de Herman para a comédia nacional.

Posto o sucesso, a TVI, para não se ficar atrás, imita imediatamente o modelo, para lhe dar uma coerência interna alguém decide das personagens-tipo fazer personagens mais ou menos superficiais, um espaço comum (por alguma graça de deus: o Samouco), e o anedotário nacional é decantado para um molho de espaços-tipo (em rigor aproximando, mesmo q mto pouco, a coisa da sitcom). Continua a não haver narrativa geral e a saltar de quadro-tipo p/ quadro-tipo (casa, a escola, a taberna, o cabeleireiro, etc) mas as personagens manteem-se, mas não é aí que a coisa salta.

Tens um casal central (o polícia e a cabeleireira do Victor de Sousa e da Rita Ribeiro) à volta dos quais tudo gira +ou- e tb ñ é isso q mexe nada, até porque eles funcionam sempre como “sérios” na cena cómica, são sempre ou quase sempre o razoável, o ponto de vista do público normal, na técnica mais velha c’ó cagar. Claro que enchemos a coisa de actores velhos e muito baratos e muito talentosos do teatro de revista e não só tal e qual os Malucos do Riso (o Octávio Matos, a Adelaide João, a Anita Guerreiro, a Carla Andrino, o Miguel Melo, o José Pedro Vasconcelos, o João Didelet, o João Cabral, a Inês Castel-Branco a fazer uma das grandes louras-burras da história da representação, o Pedro Alpiarça, o Rui Paulo) e também não é por aí que a coisa é diferente... o que rompe (mesmo que só para mim aparentemente) é que (acho eu) te deixaram os colegas completamente COMPLETAMENTE à solta!!

O guião é exactamente a decantação das anedotas do tempo da maria cachucha de sempre mas é como se a direcção de actores depois de filmar aquilo a bem e à primeira dissesse... ok fazemos uma como se tivéssemos todos a lsd ou com sérios problemas de esclerose dissociativa.. e os gajos fizessem, e depois é a versão injustificadamente esquisita que vai para o ar.

Eu achava, na altura e para choque dos meus amigos jovens e modernos e bem-pensantes que isto era dum brilhantismo à altura dos Gato Fedorento... revejo passado este tempo todo e continuo a achar-me com razão à primeira. Estás a ver tudo menos a ouvir a anedota, é duma soltura completamente desarmante, a obra-prima que nunca influenciou ninguém, isto é televisão que merecia um filme, um documentário.
 

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