“Solares de Portugal” só 6 episódios, RTP, 1998.
Uma descoberta por conta dos moços do Youtube que me ajudam a torturar a criança com os programas do Cleto (depois vi e está tudo na RTP Play, mas como é que se descobrem maravilhas destas no arquivo?!)... seja como for, isto tirou-me anos que já vivi, foi tanta a alegria que fiquei mais novo!
Um programa, apresentado pelo Nuno da Câmara Pereira (com um arquitecto e um Múrias na equipa) que saltita de velho palacete em velho palacete aristocrático a falar com os melhores d’entre nós (leia-se: os descendentes dos proprietários feudais dos teus tetravós)... isto é delicioso ao nível de parecer um sketch do Herman, nem dos Gato, do Herman mesmo!
O padrão é sempre o mesmo: o Nuno avança pelos campos a dizer grozélias até à entrada grande da propriedade, diz umas bojardas aprendidas de cor com evidente dificuldade sobre os estilos arquitectónicos da coisa, é recibo à porta pelas múmias paralíticas a quem a coisa pertence agora com um beijinho (aqui é de notar a invulgar familiaridade entre ultra-betos com o Nuno, que trai imediatamente o facto de sermos todos primos... eu juro que ele à “Marquesa de Ficalho” em Serpa diz “Olá tia” ), avançamos para mostrar uns óleos velhos, umas pratas, tapetes e (com sorte) Companhias da Índia, falamos muito dos avós que andaram a massacrar no intigamente e de como toda a gente era miguelista (isto do miguelismo era, ainda em 1998, um ponto muito sério entre a ultra-betaria), damos umas lérias sobre memória e história e continuidade e testemunho e preservação e coiso e tal, corta para o povão: dos sotaques (do alto Minho a Serpa) que dizem “piqueno” saltamos para uma figura qualquer da criadagem que vem (no sotaque mais local possível) gabar as virtudes da casa, dos srs, doutores e das sô donas patroas... uma maravilha (uma delas aparece vestida de minhota de rancho sabe deus nosso senhor porquê), mais paleio dos patrões, mete o inevitável product placement do facto deste “Solar de Portugal” ser agora um “turismo de habitação” (só porque a vida imita a arte e isto é o “Gente Fina É Outra Coisa” mas a sério) mas ainda duma maneira muito sonsa e envergonhada, muito tuga, dá-lhes mais umas patranhas sobre o tempo e a história e a importância de sustentarmos o cadáver aristocrático quase quase no pós-capitalismo e até amanhã se deus quiser...
Uma maravilha! um triunfo! nunca a família Câmara Pereira me deu tanta alegria e um deles é meu presidente da Junta... episódio favorito? O dos Abreu Lima de Ponte de Lima, gosto especialmente porque uma das criadas foge um bocado ao guião:
https://www.youtube.com/watch?v=RHkvSzdcXcU&list=WL&index=15&t=675s

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