“Santo António – O Casamenteiro de Lisboa” Ruben Alves, 2026.
Já fui contrariado porque detestei o primeiro, por mais que a minha querida communauté (compreensivelmente) prefira olhar para a Rita Blanco a acabar numa quinta do Douro do que, muito mais real, a Ganhar a Vida.
O Câmara chamou-lhe “filmezinho horroroso” e é pouco. Isto é demasiado mau.
Primeiro é um absurdo, obsceno, desperdício de talento: a Rita Blanco não faz nada (e faz muito bem porque isto é trabalho que só merece aparecer-se lá para receber o cheque), mas o Monchique esforça-se e não é por isso que dá esqueleto à plasticina, a Ana Bola também e não melhora... este filme tem três gerações do melhor da comédia nacional (falta o Herman) e consegue não ter graça nenhuma (para além da piada da injustificada hostilidade do Monchique e da Ana Bola ao miúdo)... este filme de certeza foi o que matou a Natalina José!!
Temos Rita Blanco, Joaquim Monchique, Maria Rueff, Ana Bola, Rui Mendes, Lídia Franco, Joaquim de Almeida, Albano Jerónimo, Natalina José, Maria d’Aires, Isabel Abreu, Rosa Areia, Paula Só e um guião com cenas inteiras escritas pela tostadeira (tal como o poster...) a tropeçar no meio de todo o product placement. Todos os momentos cómicos tresandam ao Monchique ou a Ana Bola ou a Rueff esticarem um bocado a corda... e nada faz sentido... a ideia duns casamentos em crise que ninguém quer patrocinar mas que uns franciús querem comprar, o peso da igreja (há casamentos de sto António p/ civil há anos e anos e já vários com casais do mesmo sexo), uma noite de 12 p/ 13 de Junho numa Lisboa vazia e silenciosa em frente à Sé, o pormenor racistazinho do Raj de turbante (que depois vais a ver e é um moço chamado Rui Olavo), o plano das lojas fechadas atrás de lojas fechadas e a avocado toast os discursozinhos inflamados de “não nos vão comprar a identidade!!” para pôr a minha sogra aos pulos e pinotes na cadeira, isto é tão mau tão mau a tantos níveis que há de ser o maior êxito dos últimos anos. E o cordel branco na batina do Joaquim e o vestidinho à Amália da Rita no fim e o fim em que todos batem palmas, até o Raj vestido de laranja para se ver bem que parece um meme manhoso de há 400 anos atrás. E mal filmado, tão mal filmado! Grandes planos muito fechados se calhar a pensar na inevitável televisão mas que quando fazemos plano/contra-plano entre a Rita e o Monchique metade do tempo sublinhamos as rugas dela e a outra metade as cicatrizes das plásticas dele; quando aplicamos estes planos ultra-fechados à cena da valsa é ver o público todo a arrotar para não regurgitar o lanche. Eu salto e grunho na cadeira e a tua irmã diz-me “é só uma comédia” e ia havendo violência doméstica no cinema... Eu não sei donde isto vem e muito menos para onde quer ir, vir dum filho de emigrantes portugueses em França é só mais uma entrada para a nacional queda para o paradoxo... o problema não é comprarem-nos “a identidade”, é comprarem-nos o imobiliário e a Câmara que em parte financiou este triste espectáculo é a mesma que nada faz para combater a “descaracterização” e as sardinhas tão baratas a €30... eu juro, se vejo este gajo na rua dou-lhe um pontapé nas canelas! Vergonha! “Filmezinho horroroso” foi caridade do Câmara.
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