Notas feitas.

“O Comportamento Político dos Militares – forças armadas e regimes políticos em Portugal no século XX” José Medeiros Ferreira, 1992

isto é História como ela gosta de se pensar: circunscrita e rigorosa, pim pam pum, absolutamente competente e até parece que o tio Zé nunca teve uma opinião política na vida.

 

“Les Rites de Passage – étude systématique des rites” Arnold van Gennep, 1909

uma das magna opera da disciplina. Isto é obrigatório porque muda a maneira como vês o mundo porque não consegues deixar de ver o padrão que nós humanos repetimos e repetimos nisto não sabemos bem porquê.

 

“O Império Romano” / “A Alma Romana” Pierre Grimal, 1993 / 1997

com o Martin, o Grimal é a fonte do meu perene enrabichamento com a Roma antiga... sim sim já sei do meme dos machinhos que pensam em Roma não sei quantas vezes por dia... mas eu não é porque os romanos eram homens a sério e nós não sei o quê (isso é só dégénérescence à de Maistre), se os moços soubessem no que os romanos se metiam... O primeiro é muito bom para abertura de conversa sobre aquela gente, muito o senhor professor especialista desce e explica aos miúdos os 25 pontos que precisas de saber. O segundo é muito trabalho de fim de carreira, o senhor professor senta-se e discute o espírito dum povo: é muito muito bom, muito engraçado como sempre com o Grimal que é 1/2 faceto, muito fundo.

 

“Memória das Guerras Coloniais” João Paulo Guerra, 1994

o tio João Paulo é um jornalista dos antigos, acho que ainda faz guerra em Moçambique, mas aqui tenta não fazer um livro de História como às vezes os jornalistas tentam, mas faz uma coisa muito boa, que é tapar buracos, ângulos mortos que os historiadores deixam sempre destapados porque ñ são factos essenciais.. e tapa-os com carne. Este livro que não é um livro de História, é um muito bom livro de História.

 

“Aventuras do Bravo Soldado Schweik” Jaroslav Hašek, 1921

uma obra maior de sátira, depois de o ler não houve momento sobre o império austro-húngaro, ou o militarismo germânico ou o militarismo onde quer que seja que não me remeta para isto... isso e o “dez anos de prisão para um inocente??!. Cinco ainda passam, mas dez é intolerável!”.

 

“Masculino Feminino – o pensamento da diferença” Françoise Héritier, 1996

óptima vacina para os essencialismos dos moços são de Marte e as moças de Vénus e o caroço.. tia Françoise explica como essas coisas naturais são ensinadas e ensinadas e ensinadas até a maltinha aprender.

 

“Trauma y Recuperación – cómo superar las consecuencias de la violencia” Judith Herman, 1992

um filme de terror como seria de esperar. A associação sintomatológica entre vítimas de guerra e de violência sexual foi uma escora mental que se aguenta até hoje... não sei porque é que tenho isto em espanhol...

 

“Demian – histoire de la jeunesse d’Émile Sinclair” Hermann Hesse, 1919

este velho maluco (quando ainda era um jovem maluco) vem nesta levada porque o li na altura e tem umas coisas a dizer sobre medo, violência, comunidade... este caramelo tinha sempre coisas a dizer sobre muitas coisas.

 

“A Minha Luta” Adolf Hitler, 1926

livro mais que horrendo (que o é) é muito muito chato. Tem os clássicos todos, dois terços dos quais já o eram na altura e o outro terço tornaram-se clássicos entretanto... é possível que fosse mais surpreendente em 26, mas na realidade ele funcionou porque lhes disse o que eles queriam ouvir, mesmo sabendo que era mentira: e o que era verdade para o Adolfo é verdade para o André.

 

“Admirável Mundo Novo” Aldous Huxley, 1932

completa obra-prima, absolutamente obrigatório. Especialmente interessante a ideia que a civilização é esterilização, e a soma obviamente.

 

“Moçambique, terra queimada” Jorge Jardim, 1976

o papá da Cinha (e da Patucha que se fartava de gozar lá nas coboiadas da guerra), um tipo ligeiramente fascinante mesmo que completamente do enxofre, num “depoimento” muito descarado, quase sem a treta democrata desde pequenino do resto dos próceres do regime a tentar boiar pós-abrilada... mas o Jorge foi sempre um caubói... ia sendo dono de metade de Moçambique e saltou directamente de fura-vidas colonial e agente secreto directo do Botas e amigo do Ian Smith para o MDLP, foi-se matar a Libreville numa (em mais uma) história nebulosa enquanto o rancho de filhas suavemente escorria de volta aos ecrãs nacionais. Este dava um bom filme se conseguissem não fazer dele um herói romântico.

 

“War” Sebastian Junger, 2010

coisa muito jornalismo longo, que quando bem feito cai muito para a etnografia, entre a tropa em combate... este é tão tão bom que começa a conceptualizar, a antropologizar a sério... maior mete-a-viola-no-saco sobre as bocas que os antropólogos gostam de mandar aos jornalistas que já vi na vida.

 

“Uma História da Guerra” John Keegan, 1993

esta é suposta ser a magnum opus dum gajo que anda a olhar para coisa há décadas e décadas e décadas e é uma reconhecida “autoridade” na matéria. Há por onde agarrar? Há sim senhor, montes de coisas úteis aqui e ali num livro mto grande... é espantoso? ou pelo menos uma enorme visão integrada?! Nem de longe... Não é para deitar fora, mas francamente não vejo donde vem o gás todo que o torna “obrigatório” supostamente.

 

“War Before Civilization – the myth of the peaceful savage” Lawrence H. Keeley, 1996

eu gosto muito deste livro e acho-o muito útil. Toda a parte que o arqueólogo e historiador Keeley constrói é demasiado valor num objecto pequeno e barato, não dá para pedir mais... claro que o Keeley quer ser mais, quer ser um teórico da filosofia de ser humano e mete-se numa discussão, que na cabeça duns brancos muito antigos, anda a acontecer há uns 350 anos entre o Hobbes, que acha que os homens são muito maus e a civilização muito boa (o que o Hobbes achava era + complicado do que isto) e o Rousseau, que acha que os homens são muito bons e a civilização muito má (o que o Rousseau achava era + complicado do que isto) e o Keeley mete-se nesta conversa não existente supostamente a responder a uma antropologia do bom selvagem. Claro que os antropólogos (para aí desde o tempo do Boas) só lhe vão perguntar o que é que ele quer dizer com “civilização” ou “selvagem” ou.., se tivermos com queda para a filosofia o que ele quer dizer com “bom”. O Keeley é muito bom e ao mesmo tempo 1/2 tolo, é ignorar a parvoíce, eu também não como os ossos do entrecosto: meto-os na beira do prato.
 

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